A erva-mate no século XIX: o ápice do ciclo econômico

Entre o final do século XVIII e o início do XIX, a antiga província do Paraguai, agora Vice-reino do Paraguai, sempre mais atrelado às ordens da coroa espanhola, vai perdendo força política no contexto regional platino para o vice-reinado do Rio da Prata, cuja capital sediava-se em Buenos Aires, que agora passava a atuar de maneira mais influente na região. A instabilidade da coroa espanhola se deflagra com duas abdicações ao trono seguidas, ocorridas em 1808, o que faz com que os direitos ao reinado espanhol decaiam sobre o imperador francês, Napoleão Bonaparte, que nomeia seu irmão, José Bonaparte, como José I, rei da Espanha. Uma série de revoltas toma conta da situação política na América espanhola, e, no ano de 1810, a Argentina proclama sua independência.


O governo paraguaio, fornecedor de praticamente a totalidade da erva-mate consumida na Argentina depois das Guerras Guaraníticas (1750-1755) que desestabilizaram o sistema produtivo missioneiro, e importante parceiro comercial daquela nação, não reconhece a independência argentina, o que, forçosamente, já impõe algumas barreiras comerciais entre estes países vizinhos do Brasil.


Em 1811 o Paraguai também proclama sua independência da coroa espanhola, porém, devido a disputas políticas internas, passando por um período de três anos em estado praticamente anárquico, até que, em 1814, José Gaspár Rodriguez de Francia fosse declarado o comandante perpétuo do Paraguai, seria a partir de então o Paraguai governado sob tutela ditatorial nacionalista, fechando-se para as nações estrangeiras na intenção de construção de uma sociedade nacional autônoma. A maneira de governo paraguaio isola o país de qualquer contato comercial, cultural e produtivo com nações estrangeiras, os portos fluviais do rio Paraguai e Paraná, por onde era exportada, dentre outros produtos, a erva-mate, são fechados. Como a Argentina não possuía ervais nativos e a partir de agora não tinha mais seu principal fornecedor, as oportunidades do lado brasileiro da fronteira brotam imensamente, e é este o contexto introdutório para que os sistemas de produção de erva-mate, sobretudo no Paraná e parte do atual território de Santa Catarina, se consolidassem como os maiores produtores da Ilex paraguariensis do mundo.

A erva-mate paranaense e a origem da tradição produtiva

No contexto da independência do Paraguai e a instauração de um regime econômico fechado, diversos produtores que viviam entre Assunção e Buenos Aires, comercializando erva-mate, depararam-se com o repentino desemprego, suas funções na cadeia produtiva e comercial da erva haviam desaparecido. Dentre diversos produtores que viviam do comércio da erva-mate na região, muitos começaram a importar o Mate produzido no oeste do Paraná, sobretudo na região do vale do rio Iguaçu, porém aquela parte do estado ainda não era muito bem consolidada logisticamente, e a produção era bastante limitada devido ao difícil acesso. Francisco de Alzagaray, um tradicional produtor e exportador de erva-mate argentino que vivia no Paraguai na época da independência, analisando as possibilidades que existiam para o comércio do produto de origem paranaense, percebe, em um mapa, que o litoral da então quinta comarca da província de São Paulo, Paraná a partir de 1853, poderia ser uma saída viável para a produção da erva do primeiro e segundo planaltos paranaense, rumo aos mercados consumidores não somente argentino, mas também uruguaio e chileno.

Sendo assim, Alzagaray decide arriscar, apresenta sua proposta formalmente e recebe, em 1820, a concessão do então rei do Brasil, D. João VI, para construir a primeira instalação de engenho de erva-mate no litoral brasileiro, situando-se em Paranaguá. A erva-mate era trazida dos ervais curitibanos, já sapecada, e era processada no engenho de soque de Alzagaray, embalada em barricas de madeira, colocadas em navios e finalmente enviadas aos consumidores da região do Rio da Prata.
O novo sistema produtivo, idealizado por Alzagaray, logo atraiu outros comerciantes que atuavam nas trocas comerciais platinas, e, já em 1821, o comerciante de erva-mate, nascido na Catalunha mas erradicado no Paraguai, Manuel Miró, funda o segundo engenho ervamateiro do Paraná, inaugurando uma das que seriam as indústrias de Mate mais prósperas do estado. Estes anos iniciais da produção paranaense seriam determinantes no rumo da história não só deste estado, mas nas relações de poder econômico e de transformação do espaço em toda a região do Sul do Brasil.       
A reabertura do Paraguai a partir do falecimento do General de Francia em 1840, não seria o suficiente para um novo deslocamento do polo produtivo da erva-mate, principalmente se levarmos em conta a Guerra do Paraguai, que trataremos mais adiante nesta página, pois os engenhos de soque de Mate no Paraná se espalharam não só pelo litoral, como Morretes e Antonina, mas estima-se que, no ano de 1852, existissem 29 engenhos de beneficiamento de Mate em Curitiba¹¹. As possibilidades que se consolidaram na quinta comarca de São Paulo através da cadeia de produção do Mate, seu transporte, processamento, taxação, exportação, mostraram-se como decisivos pontos que pesaram a favor do Paraná, tornando-se uma província independente de São Paulo, através de decreto imperial de 19 de dezembro de 1853. 
Várias foram as influências da erva-mate na criação do Paraná, como as evidentes possibilidades de exportações que somente ampliavam, a intensificação da ocupação territorial neste estado e consolidação econômica da região, além do fato do aumento da arrecadação em taxas, tendo em vista que o Mate, historicamente, nunca foi de entendimento dos paulistas, mas sim da região do antigo Guairá, e ali poderia ser aprimorada a sua fabricação e possível industrialização, tão almejada pelo governo de Dom Pedro II.

Guerra do Paraguai como advento da Graciosa e Estrada de Ferro – marcas permanentes da erva-mate na memória do Paraná

Em dezembro de 1864, tropas paraguaias ultrapassam as fronteiras nacionais e invadem uma porção do território brasileiro, tomando a cidade de Corumbá, no mato Grosso do Sul. Este é um episódio, que, em acréscimo a vários outros fatores da política regional do cone sul, provocou o estopim da Guerra da Tríplice aliança, também chamada de Guerra do Paraguai. A guerra, que duraria até o ano de 1870, com a morte do presidente e chefe supremo das forças armadas paraguaias, Francisco Solano López, foi responsável por uma série de acontecimentos na América do Sul, e no nosso caso, como objetivamos compreender com maior clareza a história da erva-mate, veremos quais desfechos esta guerra desencadeou para a Ilex paraguariensis.       

A deflagração da guerra, na qual os governos de Brasil, Argentina e Uruguai se uniram para enfrentar o inimigo paraguaio, ocasionou no bloqueamento do comércio e fluxo marítimo civil nas águas dos principais rios afluentes do Prata, como o rio Uruguai, Paraguai e Paraná, pois no momento em que durasse a guerra, seriam utilizados estes rios somente com fins de ações militares. Assim, as suspensões das atividades acarretaram no fato de que, novamente, o Paraná se tornaria o único fornecedor de toda a erva-mate consumida na Argentina e no Uruguai, e o fim do comércio na bacia platina fez com que o volume de exportação da erva-mate por Paranaguá e Antonina.

A demanda pela erva-mate paranaense é tão grande que, a partir deste momento, o escoamento da produção pelo litoral do Paraná exige mudanças drásticas em seu funcionamento – até este momento, o transporte da erva mate sapecada era feito no lombo de mulas, que desciam o caminho indígena do Itupava, que ligava o litoral ao planalto, descarregando os enormes fardos, de maneira precária, em canoas, que faziam o transporte da erva desde o Porto de Cima, em Morretes, até os portos de Antonina ou Paranaguá, onde eram processadas – e a partir desta demanda, evidenciou-se ainda mais a necessidade emergente da construção de uma estrada que ligasse o litoral ao planalto curitibano. A Estrada da Graciosa, concluída no ano de 1873, marcou definitivamente a história do Paraná e o trajeto da erva mate em seu caminho percorrido pelo espaço e tempo.
Como consequência da então finalizada obra de ligação entre o litoral e o planalto paranaense, os engenhos de soque de erva subiram a serra e grande parte deles agora produzia a erva-mate em Curitiba e também em Ponta Grossa. Entre os anos de 1875 e 1879, 3/5 de todo o Mate consumido na América do Sul era proveniente do Paraná, sendo que no âmbito nacional, o Paraná era responsável por 80% da erva consumida no país, sendo que 85% de todas as exportações do estado estavam diretamente ligadas a produtos da erva-mate (conta-se neste número as exportações das barricas de madeira, que se tornou uma importante indústria relacionada à exploração ervateira, por exemplo.

Entre os anos de 1880 e 1885, deu-se a construção da estrada de ferro, ligando também o litoral paranaense ao planalto, mas desta vez não Antonina a Curitiba, como a Estrada da Graciosa o fez, mas Paranaguá a Curitiba. A construção, projetada por André Rebouças, é até hoje um incrível feito de engenharia, admirado pela sua dificuldade técnica e localidade da obra, pois atravessa o conjunto da Serra do Mar paranaense em 13 túneis, escavados no granito, em meio à floresta atlântica. A ferrovia segue sendo utilizada até hoje como o mais importante vetor de transporte de grandes cargas do interior de estado para o porto de Paranaguá, mas no período de sua construção, foi utilizado para o transporte de erva-mate processada em Curitiba e madeira extraída do interior do estado, durante o ciclo madeireiro, paralelo ao ciclo do Mate.










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